Energia produzida do bagaço da cana-de-açucar é economicamente viável
| Por Pedro Vacas

A produção de energia eléctrica através do bagaço de cana-de-açúcar é plenamente viável do ponto de vista económico e atractiva para as centrais. A afirmação é de Paulo Lucas Dantas Filho, que defendeu recentemente uma dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Energia ligado ao Instituto de Electrotécnica e Energia (IEE) da USP. Para Paulo Dantas Filho, além das vantagens ambientais, cria-se também uma terceira fonte de receitas bastante significativa para os produtores de açúcar e álcool.
A investigação foi feita a partir de um estudo onde foram analisadas quatro centrais de cana-de-açúcar na região de Catanduva, no interior de São Paulo. Segundo o investigador, o critério adoptado seria o de que as centrais deviam ser auto-sustentáveis, ou seja, toda a energia consumida devia ser produzida a partir do bagaço de cana. Além disso, o excedente energético produzido deveria ser vendido para a concessionária responsável pela distribuição de energia na região.
O processo de produção de energia eléctrica a partir do bagaço de cana-de-açúcar é, actualmente, totalmente automatizado e inserido dentro da linha de produção das centrais. Após a planta ser colhida e levada até à central, passa por três fases, o produto da primeira moagem vai para a produção de açúcar, na chamada “moagem de 1ª linha”, já na segunda e na terceira moagem o que é produzido é o álcool combustível. O que resta da cana é o bagaço, que é levado por uma esteira até à caldeira que realiza a queima. Depois de passar pelas turbinas e geradores, o vapor produzido nesta fase gera a energia eléctrica.
Em relação ao possível dano ambiental causado pelos fumos produzida na queima do bagaço, Dantas afirma que filtros recolhem a fuligem produzida. “Não sobra nada da cana, eles aproveitam tudo. A própria fuligem acaba por se tornar adubo para plantações futuras”, completa.
Rentabilidade e custos
Segundo Dantas, a produção de energia eléctrica a partir do bagaço de cana tem diversas vantagens económicas. A principal vantagem é que esse processo torna-se uma terceira fonte de receitas das centrais que a utilizam, podendo gerar até uma quarta fonte de receitas, a emissão de créditos de carbono sob as regras do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), créditos estes comercializáveis em bolsas de valores.
“É um processo natural. Ao gerarem a energia limpa, automaticamente estão habilitados para requerem os projectos para certificação de emissão de créditos de carbono. É um caminho natural”, destaca o investigador. Porém, não se trata de um processo simples, uma vez que os créditos são emitidos directamente pela Organização das Nações Unidas (ONU), o que torna o processo algo caro e relativamente demorado, na ordem dos 2 a 3 anos.
Por outro lado, compreende que o investimento inicial para a produção de energia é bastante alto. Segundo as suas pesquisas, giram em torno de R$ 1,4 milhão por Megawatt (MW) produzido. As centrais analisadas, por exemplo, produzem entre 40 e 50 MW.
Dantas esclarece que mesmo assim trata-se de um investimento bastante viável uma vez que o tempo de retorno do capital aplicado está entre 5 e 7 anos. “Os investimentos industriais, por exemplo, são da ordem dos 12 a 13 anos para retorno do negócio”. Outra vantagem na implantação deste sistema de produção de energia é a venda do excedente para as concessionárias. O investigador aponta que se tratam de contratos longos, da ordem dos 20 anos mas que garantem uma fonte de receita muito menos vinculada às oscilações de mercado.
Poucas perdas
Dantas explica que há poucas perdas de energia, se comparado com a electricidade produzida nas grandes centrais. "Como a energia produzida vai para as centrais de distribuição de cidades próximas, há muito menos perda", garante. Além disso, o período de corte da cana, de Março a Novembro, coincide com as épocas em que a oferta hidroeléctrica é normalmente menor, por causa da diminuição das chuvas, considerando que este projecto foi apresentado no Brasil.
Para o investigador, o principal diferencial do aproveitamento do bagaço da cana é a importância de ser uma energia renovável que pode contribuir com a redução na emissão de gases que provocam o efeito estufa. Ele acredita ainda que o potencial de produção de energia deve aumentar nos próximos anos por dois motivos. O primeiro está ligado à evolução tecnológica. Mesmo com um possível aumento de custos o aumento da produtividade compensaria os gastos com investimento. O segundo está na redução das queimadas no momento do corte da cana. No caso de São Paulo, por exemplo, uma resolução estadual obriga que, até 2017, as queimadas sejam extintas, o que possibilitaria o aproveitamento da palha e da ponta da cana-de-açúcar, perdidas nesse modelo de colheita. “A matéria-prima (bagaço) somada à ponta e à palha tende a aumentar em 30% a capacidade de produção de energia”, completa Dantas.
fonte: Envolverde/USP















