Falta um plano claro ao país, diz ministro inglês, Ed Miliband
| Por Pedro Vacas

O Reino Unido está disposto a dar mais dinheiro aos países do Terceiro Mundo para combater as mudanças climáticas. Mas, quer ver planos detalhados de corte de emissões, do novo acordo do clima, a serem fechados em Dezembro em Copenhaga, por parte do Brasil, China e Índia,
O diário Folha, promove o debate climático com o ministro inglês de Energia e Mudanças Climáticas, Ed Miliband.
O ministro, que esteve no Xingu no fim de semana, disse que o seu país tem interesse em financiar acções contra a desflorestação e que ficou "impressionado" com a maneira como o Brasil lida com os biocombustíveis.
Evitou, no entanto, falar de contribuições específicas para o Fundo Amazónia ou da importação de álcool. Em entrevista ao diário Folha, Miliband declarou-se optimista quanto à possibilidade de um acordo em Copenhaga, disse estar convencido de que a China não será um obstáculo.
A entrevista:
Folha - Um dos delegados da Convenção do Clima das Nações Unidas disse que nós estamos num bom caminho para um mau acordo em Copenhaga. O Sr. concorda?
Ed Miliband - Estamos num caminho ascendente para um bom acordo. Sinto-me optimista, em parte porque a política está a alcançar a ciência, então a decisão dos líderes das grandes economias de aceitar o objectivo de 2C - e o Brasil teve um papel importante nisso - foi um avanço fundamental. A tarefa agora é ter metas de médio prazo compatíveis com o acordo de 2C (de limitar o aquecimento global a 2C em relação à era pré-industrial), metas para os países desenvolvidos e acções e compromissos para os países em desenvolvimento.
Folha - O que os EUA propuseram até agora ainda não está nem perto de alcançar a ciência?
Miliband - Precisamos que os EUA façam o máximo que puderem. A lei Waxman-Markey (a lei americana de mudanças climáticas, que transitar no Congresso), tem duas versões: a mínima e a máxima. E, na máxima, há acções significativas.
Folha - Como é que o compromisso de 2C traduz-se na partilha de responsabilidades?
Miliband - Os países desenvolvidos precisam de mostrar liderança e isso significa reduções de emissões em 2020, 2025, 2030. E, em 2020, acho que a maioria dos países em desenvolvimento, não vai reduzir necessariamnete as suas emissões, mas pelo menos mostrar um desvio do cenário usual. Depois, há as responsabilidades financeiras dos países desenvolvidos em relação aos países em desenvolvimento. E o objectivo aqui é fazer virar a curva de emissões.
Folha - Gordon Brown disse que os países em desenvolvimento precisam de US$ 100 bilhões por ano. Quanto é que o Reino Unido está disposto a financiar?
Miliband - A intervenção do Brown foi importante porque ele foi o primeiro líder a pôr um número, o que era absolutamente necessário. Parte da negociação incidirá sobre qual será a nossa contribuição, mas quero deixar claro que estamos dispostos a colocar dinheiro adicional, além dos compromissos actuais.
Folha - O Brasil está a fazer muita propaganda do combate à desflorestação e do programa do álcool, mas ninguém no governo disse nada sobre as reservas de petróleo recém-descobertas. O Sr. acha que o novo acordo permitirá ao Brasil usar esse óleo impunemente?
Miliband - Espero que o Brasil possa dar um número de como planeia reduzir as suas emissões em 2020. Não necessariamente reduções absolutas, mas desvios da sua trajectória actual de emissões. Todos nós precisamos de operar dentro de um plano de carbono. Não esperamos metas do tipo Quioto para os países em desenvolvimento antes de 2020, mas esperamos um plano sobre como eles se vão desviar da trajectória actual.
Folha - Como espera o Sr. convencer a China e a Índia?
Miliband - Para ser franco, a China está convencida. Eles querem um acordo.
Folha - No plano de transição do Reino Unido, a palavra "etanol" aparece só uma vez. O álcool não é parte da solução?
Miliband - Nós contamos um pouco com biocombustíveis, porque temos uma meta de renováveis no sector dos transportes, que é de 12%, até 2020. O debate sobre etanol e biocombustíveis precisa de ser informado pela experiência brasileira. É interessante para mim falar com as ONGs, porque elas são muito mais pró-etanol e biocombustíveis do que outras. Há alguns biocombustíveis que terão impacto negativo no uso da terra e na segurança alimentar e há alguns casos em que eles podem funcionar.
Folha - Só para esclarecer: o álcool não foi mencionado por incerteza ou falta de informação?
Miliband - Ele é parte da arquitectura. Há cautela sobre os biocombustíveis no Reino Unido por causa do medo que as pessoas têm, mas fiquei impressionado com o que vi no Brasil.
Folha - O Sr. vem de uma família de activistas anti-nucleares. As centrais nucleares são uma parte do plano britânico. Qual é a reacção do público britânico e da sua família?
Miliband - Não perguntei ao meu pai ainda! Acho que o público britânico tem uma posição interessante: há dois ou três anos, as pessoas diriam que esse assunto era politicamente perigoso, mas hoje parece haver um consenso. Há mais protestos contra a extracção de carvão do que contra centrais nucleares.
Folha - Qual é a sua visão sobre o REDD (Redução de Emissões por Desflorestação e Degradação Florestal)? Deveria ser baseado em fundos voluntários ou de mercado?
Miliband - Acho que ambos são necessários. As florestas precisam de ser parte da arquitectura financeira do novo acordo. Um acordo sem florestas seria como Quioto sem os EUA, porque é um quinto do problema.
fonte: Diário Folha















