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O ponto crítico da civilização
| Por Pedro Vacas


Tem aumentado a preocupação com os pontos críticos da natureza. Cientistas já questionam, por exemplo, a capacidade de recuperação das espécies em risco de extinção. Biólogos marinhos, por sua vez, estão preocupados com o facto da pesca excessiva dar início ao colapso desta indústria.



Sabemos que existiram pontos críticos em civilizações antigas, pontos em que a população foi dominada pelas forças naturais que as ameaçavam. Por exemplo, em algum ponto, o acúmulo de sal relacionado à irrigação do solo esgotou a capacidade agrária dos Sumérios. Com os Maias, os efeitos danosos do desmantelamento associados à perda da fertilidade do solo tornaram-se irreversíveis.



Porém, os pontos críticos que levam ao declínio e ao colapso de uma sociedade nem sempre são facilmente previstos. De forma geral, os países desenvolvidos podem lidar com novas ameaças de forma mais efectiva do que os países em desenvolvimento. Por exemplo, enquanto os governos de países industriais têm sido capazes de manter os índices de infecção do HIV entre adultos abaixo de 1%, muitos governos de países em desenvolvimento têm falhado nesse controle e agora estão a lutar com altos índices de infecção. Isto é mais evidente em alguns países sul-africanos, onde 20% ou mais adultos estão infectados .



Uma situação semelhante existe com o crescimento populacional. Enquanto a taxa se mantém estável em quase todos os países industrializados, excepto nos Estados Unidos, observa-se o contrário em quase todos os países da África, Médio Oriente e Índia - onde a taxa populacional é crescente. Esses 80 milhões de pessoas que nascem por ano, exactamente, em países onde os sistemas naturais já se estão a deteriorar, em face da excessiva pressão populacional. Nestes países,o risco de falência do governo também está a crescer.

No entanto, alguns assuntos parecem superar até mesmo as habilidades dos governos das nações mais avançadas. Quando alguns poucos países detectaram a redução nos níveis de água dos lençóis subterrâneos, era lógico esperar que os seus governos rapidamente elevassem a eficiência racional do recurso e estabilizassem o crescimento da população, para estabilizar os aquíferos. Infelizmente, nenhum país - desenvolvido ou em desenvolvimento - o fez. Dois países em falência, onde o resultado da extracção excessiva da água soma-se à falta de uma política de segurança hídrica, são o Paquistão e o Iémen .



Embora a necessidade de cortar as emissões de carbono seja evidente há já algum tempo, nenhum país conseguiu tornar-se uma nação “carbono-neutro”. Até mesmo as sociedades tecnologicamente mais avançadas enfrentam muita dificuldade política para isso. Poderiam, assim, os crescentes níveis de dióxido de carbono na atmosfera provarem-se tão incontroláveis para a nossa civilização quanto os níveis de sal no solo foram para os Sumérios no ano 4.000 A.C.?



Outro ponto de pressão sobre os governos é a redução da oferta de combustível fóssil. Embora a extracção mundial de petróleo tenha excedido em 20 anos, a descoberta de novas reservas, somente a Suécia e a Islândia possuem algo que remotamente se assemelha a um plano para lidar efectivamente com uma retracção da oferta .



Este não é um inventário exaustivo de problemas não resolvidos, mas apresenta uma noção da quantidade deles. Analiticamente, o desafio é avaliar os efeitos de pressionar cada vez mais o sistema natural global. O resultado desse problema ficou evidente na actual questão da segurança alimentar, o ponto fraco de muitas civilizações antigas que entraram em colapso .


Além da dificuldade de adaptação ao crescimento constante da procura por alimentos, várias tendências convergentes estão a tornar as coisas ainda mais difíceis para os agricultores. Os pontos críticos são: a queda dos níveis dos lençóis freáticos; o uso indevido de terras cultiváveis e ocorrências climáticas extremas, incluindo ondas de calor, secas e cheias. Como os problemas não resolvidos se acumularam, os governos mais fracos estão a começar a sucumbir .



Para agravar a situação, os Estados Unidos, maiores produtores mundiais de trigo, aumentaram dramaticamente a sua produção utilizando o etanol como combustível - passando de 15%, em 2005, para mais de 25% em 2008. Esse esforço mal orientado para reduzir a dependência do petróleo ajudou a conduzir os preços mundiais de trigo a elevações constantes até meados de 2008, criando uma insegurança alimentar mundial sem precedentes .



Os riscos desses problemas acumulados (e suas consequências) dominarão cada vez mais os governos, levando à falência generalizada do governo e, finalmente, ao fim da civilização. Os países que estão no topo da lista de governos em falência não são particularmente uma surpresa. Incluem, por exemplo, Iraque, Sudão, Somália, Chade, Afeganistão, República Democrática do Congo e o Haiti. E a lista cresce cada vez mais a cada ano, levantando questões perturbadoras: quantos Estados em falência serão submetidos a isso antes do fim completo da civilização? Ninguém sabe a resposta, mas é uma pergunta que precisamos de fazer.

Estamos numa corrida entre os pontos críticos da natureza e os nossos sistemas políticos. Podemos desactivar poderosas minas de carvão antes que o derretimento da camada de gelo da Gronelândia se torne irreversível? Podemos reunir vontade política pelo fim do desmantelamento na Amazónia antes que as crescentes queimadas cheguem a um ponto sem retorno? Podemos ajudar os países a estabilizarem a população antes que se tornem estados em falência?



Temos tecnologias para restaurar os sistemas naturais de suporte da Terra, para erradicar a pobreza, para estabilizar a população, para reestruturar a economia energética mundial e o clima. O desafio agora é construir vontade política para o fazer. Salvar a civilização não é um desporto para espectadores. Cada um de nós possui um papel de liderança a representar.

fonte: envolverde


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